LITERALIDADE: A MAIOR INIMIGA DE SUA TERAPIA
- Marcio Cruz

- 28 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de dez. de 2025
A linguagem simbólica antecedeu e dominou a maior parte do tempo da existência do Homo sapiens na superfície do nosso planeta. Muito antes do surgimento do pensamento racional, da linguagem escrita e da matemática, havia uma mente primordial que se relacionava com a realidade por meio de símbolos, metáforas e mitos, com uma abrangência muito mais ampliada dentro do espectro da consciência humana do que aquela proporcionada pelo filtro intelectual.

A habilidade de pensar simbolicamente é extremamente antiga, mas fomos perdendo aos poucos a nossa identificação com essa forma de frequentar o mundo, na medida em que o pensamento racional estruturado pelo paradigma cartesiano/newtoniano foi ganhando força frente ao sucesso triunfal da ciência e da tecnologia. Em contraposição à linguagem simbólica, o pensamento predominante do mundo atual é caracterizado pela fisicalidade, pelo reducionismo e pela precisão descritiva tão característica da tecnologia e do universo digital.
Diferenciando o sentido literal do simbólico, poderíamos dizer que a literalidade se concentra no aspecto mais delimitado de uma palavra, de uma ideia ou de um conceito, ao passo que a simbologia aponta para uma direção além da estrutura linguística, reconhecendo os limites das palavras e assim entendendo que é preciso apelar para um sentido mais amplo, mais ambíguo e menos preciso. Transcendendo a si próprios, os símbolos são imagens que buscam apontar para uma direção em que as palavras já não funcionam mais. Constituem um meio e não um fim em si mesmos, como o desenho de uma placa de trânsito que só faz sentido por causa da ideia que ela representa, não possuindo um significado isolado na materialidade do poste afixado em uma esquina.
Sendo hoje a narrativa predominante de nossa civilização, a literalidade é até utilizada para popularizar as religiões e assim angariar novos adeptos. Mas ao mesmo tempo em que a interpretação literal populariza, ela amputa o profundo enraizamento dos símbolos no campo da consciência transpessoal (para o melhor entendimento deste ponto, sugiro a leitura da postagem O Universo é Mental). E como efeito colateral, a literalidade promove a inflexibilidade, o fanatismo e o fundamentalismo religioso, posto que não permite as interpretações em camadas que a simbologia, os mitos, as parábolas e as metáforas sempre objetivaram promover.
O determinismo e o fatiamento em busca dos blocos básicos de construção da realidade nos deixaram cegos para o enraizamento e a continuidade da natureza da qual somos inegáveis derivações. Isso traz implicações individuais e sociais em nossa forma de abordar a natureza e, por consequência, a nós mesmos, encarando a tudo e a todos de forma fracionada e predatória. A ilusão da separação, reforçada pela narrativa da física clássica e do paradigma materialista, empobrece a nossa interação conosco mesmo e com o contexto ao redor, levando-nos a acreditar infantilmente que as palavras são capazes de explicar tudo o que existe. Incapacitados que estamos de conceber a existência de um universo para além da razão, das palavras e da literalidade, amputamos uma ampla parte de nossas vidas com efeitos catastróficos para a nossa saúde e para o nosso bem-estar. Perdemos totalmente a nossa capacidade de entender os mitos, as metáforas, os poemas e os ritos, imersos que estamos na precisão literal sobre tudo, levando-nos ao achatamento dos significados e ao extremismo político, ideológico e religioso.
No que se refere à abordagem da TRM, o perigo do uso da literalidade é o mesmo: pelo fato das vivências se encontrarem na esfera das memórias, do inconsciente e do inconsciente coletivo, o conteúdo a ser trabalhado pode ser literal ou metafórico. E a mente racional tenderá a supervalorizar a literalidade em detrimento do simbolismo, sendo que o caminho para a cura será justamente o contrário. Ou seja, mesmo considerando uma memória como literal e descrita de forma precisa pelo paciente, o importante é compreender as feridas de alma, os padrões de comportamento, os aspectos inconscientes, os samsaras (ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos de um indivíduo como efeito do karma) ou os arquétipos que se encontram além da narrativa visível, os quais influenciam o pensamento e o comportamento do paciente de forma velada. Em busca da raiz subjetiva do problema, o caminho sempre será o do aprofundamento em camadas, finalizando nos aspectos arquetípicos da vivência, ainda que esta tenha começado na descrição literal.
A literalidade, a precisão e o reducionismo são aspectos fundamentais apenas no universo das máquinas e dos computadores. Como seres psíquicos e orgânicos que somos, essa abordagem representa apenas os aspectos iniciais e superficiais do processo de cura. Com um histórico mental que ultrapassa muito a pessoalidade e a encarnação, a simbologia, a metáfora e o mito ainda constituem partes essenciais de nossa formação mais primitiva, as quais influenciam o momento presente de maneiras impensáveis para a esmagadora maioria de nós, isolados que estamos no estilo de vida extremamente imediatista e superficial do mundo moderno.
O impulso pela interpretação literal das vivências e da abordagem da TRM tenderá a sabotar todo o processo, desviando o indivíduo da tão almejada cura psíquica. Por consequência, o paciente precisará aprender a abrir mão da literalidade e do controle racional com o intuito de promover o escoamento espontâneo do conteúdo inconsciente para a porção consciente. Somente então, será possível ampliar a consciência do paciente para além da razão e assim alterar a sua percepção sobre si mesmo e sobre o seu papel neste mundo.
Marcio Cruz é terapeuta de regressão de memória formado pelo IMMTER - Instituto Mineiro de Medicina e Terapias e pós-graduado em Neurociências e Comportamento pela PUC do Rio Grande do Sul. Saiba mais sobre Marcio Cruz na seção O Terapeuta. Terapia por Reintegração de Memórias - TRM Terapia alternativa na cidade de Jundiaí, SP.



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